04 agosto 2015

Aperta a Tecla • explosão nuclear

Imagem: Marina Ramos
"A notícia de que os governantes mais poderosos tomaram essa decisão extrema de reiniciar o mundo, como um computador que acabou de ser atualizado, deixou todos com medo. Deveras, né? Medo de morrer todo mundo tem, já que não fomos feitos pra isso. Eles selecionaram apenas um casal pra continuar vivo e reencher o planeta, o que nos fez ter certeza de que essa decisão foi planejada há muito tempo. O casal teve seus genes modificados pra serem perfeitos. E, aparentemente, são. A moça é ruiva e tem um sorriso tão branco quanto os mostrados em propagandas de creme dental. Seus cabelos são lisos e compridos e seus olhos são mil vezes mais verdes do que a grama, agora amarelada, do Central Park. Ela é alta e esbelta, com certeza capaz de despertar inveja em qualquer mulher. Já o rapaz tem a pele morena e os olhos tão azuis quanto o Pacífico. Ele tem uma feição confiante, e seu corpo, nem tão magrelo, nem tão musculoso, parece encantar moças do mundo inteiro. O que há em seus cérebros e os faz tão diferentes de qualquer um de nós ninguém sabe, e nem vai saber.

Da janela do meu quarto dá pra ver as pessoas correndo de um lado para o outro, em desespero. A maioria começa a tirar a própria vida de algum jeito rápido, mas ainda há quem busque um lugar seguro, que cá entre nós, não vão encontrar. Eu poderia fazer o mesmo, ou estar como a Natasha do Capital, que só queria dançar. Mas não. Estou aqui, encolhida num canto escuro da casa, como quando eu era criança e fazia algo errado. Minha mãe está ao telefone, ligando pra meio mundo de gente, um modo bobo de se despedir.

Meu cabelo está preso em um coque no alto da cabeça e meu rímel está borrado, mas nada disso importa no momento. Não importa que curso você fez na faculdade ou ou quantos livros leu. Não importa quantas línguas diferentes fala, pra onde viajou nas últimas férias ou que problema de vista você tem. Não importa se você tem não amigos na escola ou se acha seu sobrenome feio. Nada disso faz a mínima diferença agora. Lágrimas salgadas escorrem pelas minhas bochechas e um nó se forma em minha garganta. Tento engoli-lo, mas parece impossível. Fecho os olhos e tento não pensar em nada, mas isso também parece impossível. As palavras que nunca disse agora martelam em minha mente. Todos os meus erros parecem pesar uma tonelada, e os conselhos que decidi não seguir agora fazem um pouco mais de sentido. Agora nada pode mudar nada. Nada mais importa. Acabou.

Os noticiários informaram que daqui a pouco haverá a explosão nuclear que nos dará um novo começo. Mas acho que ela aconteceu, sabe? Aqui, dentro de de mim.".

[Ficou boiando? Saiba mais sobre esse projeto incrível criado pela Marina Ramos]

4 comentários:

  1. Como assim, Camila? :O
    Tô chocada! Eu quero maaaaaais! Ficou maravilhoso seu conto, me conquistou já no primeiro parágrafo. Maravilhoso! Arrasou!
    Sério, fiquei com muita vontade de ler mais :)
    Só tenho uma pequena sugestão: Quando você citou Natasha do Capital eu levei alguns segundos para entender que era a música, talvez se você tivesse colocado " como a Natasha da música do Capital Inicial", o entendimento tivesse vindo mais rápido, mas tirando isso, está perfeito!
    Parabéns! E continua escrevendo que você tem talento :) Amanhã atualizo a postagem lá no blog.

    Beijos,
    www.naestradadafantasia.com

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    1. Muito obrigada pelos elogios, Marina! Fico feliz que você gostou!
      Desde que você lançou o desafio fui escrevendo e reescrevendo esse texto pensando que não conseguiria escrever sobre esse tema, mas aí saiu isso. Obrigada pela sugestão quanto à Natasha, eu estava com muita dúvida se colocava ou não ela.
      Já estou pensando na postagem do outro tema, que também vai ser um tiquinho difícil, mas desafio é desafio, né?
      Um beijo ;*

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  2. Camilaaaa, ficou demais. Sério, adorei seu texto (como todos os outros). Ah, aquele lance da Natasha, também buguei por uns minutos.

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    1. Obrigada! Não era minha intenção fazer você pararem pra pensar nessa parte do texto, mas já que vocês pararam...
      Um beijo ;*

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